28 julho 2010

eu: eu só ponho as mãos no fogo por mim e é quando estou acordado.
mãe: eu nem por mim ponho as mão no fogo...
(pausa)
mãe: ... o fogo queima de qualquer forma.

24 julho 2010

Um rasgo de luz atravessa as cortinas entreabertas e bate directamente nos seus olhos. Incomodado, abre lentamente os olhos. Leva as mãos à cara e esfrega os seus olhos, ainda remelosos, ao mesmo tempo que pragueja entre dentes palavras desagradáveis por ser despertado desta forma. Trava uma luta desleal entre as dimensões do seu corpo e da cama, sendo o resultado um encontro de 1º grau entre os seus braços e a cabeceira da cama ao mesmo tempo que atira para o chão os cobertores, revelando o frio que realmente se faz sentir fora da cama. Num movimento seco e rápido, quase automático, lança-se para puxar novamente os cobertores, aconchega-se e pela primeira vez esboça um sorriso de contentamento, como uma criança a quem é dado o seu peluche favorito antes de adormecer. Chega! Abre agora novamente os olhos, desta vez sem palavras de rancor, deixando a claridade apoderar-se da sua visão. Como os olhos entreabertos e testa franzida faz um esforço para se ambientar à luz. Olha agora em seu redor e apercebe-se de que aquele não é o seu quarto; a manhã seguinte num local novo trás sempre desconforto. As paredes em betão puro dão um ar frio à divisão - avante-garde uma treta pensa ele. A monotonia das paredes apenas é quebrada pelo guarda-fatos embutido nas mesmas. Resignado, respira fundo e afasta os cobertores. Um arrepio gelado apodera-se de imediato do seu corpo. Calça uns chinelos, pretos que encontrara debaixo da cama, um modelo muito clássico como seria de esperar, sem adornos, arrastando-se depois até à casa de banho. Passa a cara por água e olha-se ao espelho, com a visão ainda turva, não consegue identificar de quem é aquela silhueta no outro lado do espelho. Leva novamente as mãos cheias de água à cara, erguendo mais uma vez o rosto em direcção do espelho - bem melhor, diz num tom irónico. Não há café. Apenas uma caneca de leite em cima da secretária. Abre as cortinas do quarto, que escondiam atrás uma enorme janela a toda a largura da parede e, que por sua vez, separava o quarto da praia. Move-se então para junto da cadeira que está perto da secretária, com uma manta castanha, de padrão xadrez que mais parece ter sido da sua avó, pelas costas e que havia encontrado dentro do guarda fatos. Segurando firmemente a caneca de leite com ambas as mãos – para disfarçar o nervosismo e ansiedade – dá um pequeno gole já que é afastado instantaneamente pelo bafo quente que a caneca emana - #!?#”#... afinal ainda está quente. Erguendo a cabeça, olha então com atenção para o exterior do quarto. Chove incessantemente e o céu está negro como breu. O vento sopra forte, tombando a pouco vegetação que se ergue nas dunas que se vão perdendo de vista, e que parecem desaguar no mar. Ao fundo, bem mais distante, no canto superior da sua janela ergue-se um farol que pauta toda a vida em redor. A vida ou a aparente falta dela em seu redor. Deixa escapar um sorriso – bom, pelo menos estou cá dentro…

12 julho 2010

É um pouco ambíguo dizer onde começa e acaba um deserto; depende de onde vimos... depende para onde vamos. Mais certo é dizer que todos nós fazemos da nossa vida uma travessia num deserto; com miragens e oásis, caminhando sozinhos ou em caravana, roubando pequenos tesouros, como Alibabá e os 40 ladrões, e que guardamos valiosamente nas nossas arcas, por vezes com mais apoio montados num camelo, outras quem sabe num 4x4 ao melhor estilo do rally onde nenhuma duna nos impede de continuar, e outras ainda pé ante pé debaixo do calor abrasivo que quase transforma a passagem pelo deserto na nossa última morada. Para além de um dos mais inóspitos lugares da Terra, o deserto é ainda o lar de alguns dos mais perigosos animais, movidos pelo instinto, não pedem licença para matar, ainda assim, é ao lado destes que pernoitamos e são eles que nos recordam a vertente mais animalesca e primitiva que ainda nos resta. O instinto de sobrevivência.



'Não ter já nada para dizer e continuar a escrever é um crime, porque não tem o direito de continuar a escrever se não tem nada para dizer"
Saramago